Desmistificar a criatividade nas empresas

Irene Lucena

Desmistificar a criatividade nas empresas

A criatividade é indispensável quando falamos de negócios, especialmente na conjuntura atual. Com um mercado tão volúvel, as estruturas e procedimentos habituais fazem com que seja difícil antecipar, pelo que devemos recorrer às pessoas e à sua capacidade para dinamizar, renovar, inovar e adaptar-se.

A criatividade é precisamente isto. Porque ser criativo não é viver nas nuvens, nem sentar-se à volta de uma mesa a conceber ideias loucas. Tampouco se trata de romper com as normas estabelecidas só porque sim. A criatividade é uma forma de encontrar soluções, originais e críticas, para enfrentar situações ou tirar proveito delas.

Contudo, não é esta definição da palavra que se encontra arraigada no imaginário popular. Geralmente, a criatividade é percebida como um dom reservado a algumas pessoas, como os génios, as crianças ou os loucos. Como se esta condição estivesse apenas nas mãos de uns poucos.

Criativo: nasce ou faz-se?

Não há dúvidas. A capacidade criativa tem uma base fisiológica nos seres humanos: o nosso cérebro conta com cem mil milhões de neurónios que, por sua vez, geram milhares de ligações. Ou seja, a nossa capacidade para relacionar ideias é infinita.

No entanto, na prática, nem sempre desenvolvemos todo o nosso potencial. Os processos, ambientes e hierarquias organizacionais raramente fomentam a criatividade da melhor forma. Fatores como o medo, o tédio ou o stress inibem e limitam-nos.

Mitos criativos em ambientes de trabalho

Se neste momento está a perguntar-se como pode potenciar a inovação na sua empresa, continue a ler para descobrir os mitos e as falsas crenças que dificultam os processos criativos nesta área.

1. A inspiração chega como que por magia

O mito Eureka, tal como o identifica David Burkus no seu livro The Myths of Creativity (2013), consiste na suposição de que as ideias surgem do nada, quando, na realidade, são o resultado de um trabalho realizado anteriormente sobre algo. A experiência prévia tem um papel relevante na criatividade, uma vez que tudo o que aprendemos hoje pode ser útil para dar resposta a um problema no futuro. Reservar espaços para a exploração e a inspiração é uma boa forma de preparar o terreno para fazer crescer as melhores ideias.

2. Não se deve impor limites aos processos criativos

Somos mais criativos em frente a uma folha em branco ou quando partimos de um enunciado bem definido? A verdade é que os recursos ilimitados nem sempre significam um resultado mais inovador. A criatividade precisa de margens e regras que nos levem ao limite e que fomentem o pensamento lateral. Assim, lembre-se, da próxima vez que participar numa sessão criativa, aplique limites intencionalmente para maximizar o potencial criativo do grupo.

3. As melhores ideias já foram inventadas

Independentemente do setor a que se dedique quando ler este artigo, ainda há muito espaço para a inovação. Ao longo da história, vimos como foram reinventadas ideias antigas para criar novos produtos ou serviços. E o passado não é estático. É necessário examiná-lo para repensar o status quo e descobrir soluções inovadoras. Como quando o Instagram se baseou no Snapchat para criar o seu formato de sucesso stories. Não tenha medo, inspire-se na sua concorrência e em setores paralelos para melhorar o que oferecem.

4. As melhores ideias resultam do brainstorming

Esta técnica, concebida pelo publicista Alex Osborn, é a mais famosa do processo criativo, ainda que não seja necessariamente a mais eficaz se não for aplicada corretamente. Não existe nenhuma evidência de que lançar ideias em grupo estimule a criatividade. Algumas pessoas têm medo de serem criticadas e existe uma tendência para encontrar pontos em comum que afeta negativamente o rendimento da sessão. Assim, antes de iniciar uma tempestade de ideias, deixe que cada membro da equipa pense individualmente, sem preconceitos e sem ser influenciado pelo grupo.

5. A criatividade está no terreno das ideias, não no da execução

A criatividade não é um processo linear, nem acaba na fase de ideação. Requer experimentação com utilizadores potenciais para reunir conhecimentos que permitam otimizar as propostas. Assim, não deverá esperar que as primeiras ideias sejam definitivas. Mantenha uma atitude aberta, envolva outras equipas e crie um programa de validação com utilizadores que assegure o sucesso do projeto no mercado.

Agora que já colocamos na mesa algumas das ideias limitadoras que nos condicionam, não há desculpa para não pôr a criatividade no centro dos processos corporativos. Porque só quando formos capazes de mencionar a palavra «criatividade» sem provocar suores frios nos departamentos, nos teremos transformado numa empresa verdadeiramente inovadora.

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