Qual o sentido de nos perdermos nas palavras

Josep Maria Mir

Qual o sentido de nos perdermos nas palavras

Recordo ainda a sua voz profunda e alta ao afirmar: “Qual o sentido de nos perdermos nas palavras, Mir”. Fazíamos um daqueles passeios que tive a sorte de desfrutar ao seu lado, durante o qual comentávamos e dissecávamos qualquer tema. Nessa ocasião, falávamos de artistas, designers gráficos, estilistas – e qualquer outro tipo de criador – quando, com a sua característica contundência, Camilo José Cela encerrou o assunto: “Que diferença faz o que cada um é quando o que importa é o que cada um faz, que diferença faz se é arte ou artifício? Qual o sentido de nos perdermos nas palavras”.

Vindo de um escritor – e um escritor célebre – é uma afirmação, no mínimo, inesperada, mas não deixa de ser verdade. E, agora, faz sentido usá-la aqui, ao falarmos de logótipos: que importância tem o seu nome quando o que importa é a função que desempenha e o problema que resolve?

Diferentes formas de dizer o mesmo?

Imagótipo, isótipo e isólogo são, a meu ver e no fundo, um desejo de criar palavras que nunca foram necessárias. Desde inventar termos que dão uma aparência de ciência até resolver problemas de comunicação através de símbolos.

Porque, e embora pareça polémico, isso é o que importa: a função e não a mera forma. E se uma nomenclatura fosse necessária, ninguém foi capaz de inventar uma palavra melhor do que aquela que sempre existiu: símbolo.

Símbolo: um sinal que estabelece uma relação de identidade com uma realidade que evoca ou representa

Essa é, ou deve ser, a função de qualquer elemento de identidade, independentemente do seu nome. Representar uma ideia, comunicar uma intenção.

Símbolos e logótipos

Além da duvidosa fidelidade à realidade entre as palavras acima e o que elas representam (se isólogo significa literalmente “igual à palavra”, porque é que é usado para definir os logótipos em que o texto e a imagem/ícone formam um único elemento e não podem ser representados separadamente?), prefiro falar, em especial, apenas de dois elementos:

  • o símbolo, precisamente como um elemento simbólico
  • o logótipo, o texto que o acompanha e ajuda a comunicar

Entre estes dois, existe sempre um que vigora, e deverá ser o valor predominante aquele que dá, se necessário, o nome à “invenção” ou representação.

Umas vezes, será algo mais alegórico; outras vezes, menos. Por vezes, será mais importante a palavra (logótipo) e, noutras vezes, a figura ou metáfora (imagótipo). E, mesmo aí, não estaríamos a falar de um imagótipo, mas sim de um iconótipo. Pois é a palavra ícone que transporta uma certa noção simbólica que é o que é, ou deveria ser, o elemento ao qual nos referimos.

Ou seja, quando se trata de uma palavra, será um logótipo. Quando se trata de um espetáculo gráfico composto por palmeiras, luzes e outros elementos… não sei o que seria, mas poderíamos falar de identidade visual.

O oposto, ou o excesso de termos, pode gerar confusão. Pensemos em alguns casos reais. Que nome daríamos ao logótipo de Abanca? Ou ao logótipo da Alantra? E o que dizer da Habitaclia ou da Pans & Company?

Mas voltemos ao início, para não acabarmos por nos perder nas palavras. O importante é que, independentemente do seu nome, cada logótipo deve representar uma ideia, comunicar uma intenção. Como já dizia Salústio, na época dos romanos: “o mundo é um objeto simbólico”.

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