Colocar os fãs no centro da recuperação e revolução do desporto

Joan Mendoza

Colocar os fãs no centro da recuperação e revolução do desporto

Não é nenhum segredo que a Covid-19 provocou movimentos sísmicos em praticamente todos os setores e, claro, no mundo do desporto também.

Talvez o mais notório e significativo até à data tenha sido a falta de público nos estádios, uma situação que prejudicou o espetáculo em si, ao serem disputados jogos sem o fervor dos adeptos. Contudo, foi também a primeira vez que pudemos ouvir as conversas entre jogadores, treinadores, árbitros e os próprios toques na bola, no caso do futebol. Mas isto traduziu-se, sobretudo, em grandes perdas para os clubes, devido à diminuição das vendas de bilhetes e de merchandising, perdas nos gate venues, patrocinadores, etc.

Durante todo este tempo, temos assistido a uma intensa, embora saudável, concorrência entre os clubes para dar a volta por cima e encontrar novas fórmulas para salvar uma indústria que precisava de transformação, e para a qual a inovação está a ser um dos principais ingredientes.

Dois grandes desafios das marcas desportivas

Estamos de acordo que, atualmente, há dois grandes desafios comuns a todas as marcas desportivas:

  • Como encontrar novas formas de gerar receitas
  • Como redefinir as experiências com os fãs para que sejam mais atrativas

A tecnologia, evidentemente, é um fator-chave nesta transformação e está a provocar grandes mudanças nos comportamentos e expectativas do público, que é cada vez mais exigente com os clubes e os impele a repensar e a redefinir o desporto como espetáculo.

E os clubes deram conta de que não podem conformar-se com o facto de uma parte significativa das suas receitas depender do público que assiste aos seus eventos.

Mais do que fazer uso das tecnologias disponíveis sem demora, os clubes devem ser criativos na aplicação deste tipo de ferramentas para criar experiências de marca imersivas, evitando utilizá-las sem controlo nem sentido.

Os novos serviços e plataformas digitais estão a aumentar a interatividade e a criar novas oportunidades para gerar receitas, além de criarem novas experiências para os fãs. A tecnologia e os dados oferecem a possibilidade aos fãs de desfrutar da emoção positiva dos desportos e do entretenimento em direto, estejam onde estiverem, sem exigir a sua presença nos estádios.

O recurso à tecnologia

Um exemplo de como as novas plataformas podem mudar as regras do jogo (literalmente) e proporcionar novas experiências aos fãs é o caso da Fan Controlled Football, uma nova liga ludificada de futebol americano.

A liga possui quatro equipas para esta primeira temporada e os jogos têm lugar de fevereiro a março. Das quatro equipas, duas delas tinham nomes de futebol americano bastante convencionais que não pertencem à NFL: Zappers e Beasts. As outras duas equipas são os Wild Aces e os Glacier Boyz. Cada equipa disputou quatro jogos da temporada regular.

Os jogos são disputados no interior, o que significada que são campos mais pequenos, com muitas zonas. Os jogos são transmitidos na Twitch e são promovidos como sendo controlled by fans. Uma iniciativa claramente direcionada para os gamers, um público afastado dos desportos tradicionais.

Fans Controlled Football

Como é que funciona? Primeiro, temos de nos inscrever e selecionar uma das quatro equipas. Esta equipa será a única com que poderemos interagir. A iniciativa Fan Controlled Football permite votar na plataforma para selecionar os emblemas e os equipamentos das equipas. Isto já é algo chamativo. Porém, há algo ainda melhor: os adeptos podem escolher entre seis jogadas diferentes de ataque e a jogada mais votada será aquela que a equipa levará a cabo na vida real. Uma informação adicional: os adeptos só podem escolher as jogadas ofensivas, as defensivas é o treinador da equipa que as escolhe.

Este é, sem dúvida, um exemplo de como redefinir uma experiência no universo do desporto, no qual os mundos físico e virtual se aproximam mais do que nunca, dirigindo o desporto em direção a um entretenimento mais criativo de uma forma inovadora.

Os dados, outro recurso «monetizável»

Outro fator essencial para as organizações desportivas é a monetização de dados, sobretudo nas áreas de fan engagement. As plataformas de dados e a inteligência artificial podem ajudar as organizações a perceber o sentimento dos fãs em tempo real. Ao analisar esses dados, poderão compreender melhor o seu comportamento, aproximar-se deles e gerar uma experiência mais imersiva e atrativa. E que tenha também um retorno económico.

Um exemplo disso são os Sacramento Kings, da NBA, cujo estádio, o Golden1 Center, dispõe de uma camada de software completa na parte superior, com um centro de controlo que monitoriza as reações dos fãs nas redes sociais em tempo real.

Sacramento Kings Social Media

Outro exemplo é o dos San Francisco 49ers, da NFL. O Levi’s Stadium não está só cheio de sensores. Tem a sua própria app no estádio, que proporciona aos adeptos estatísticas em tempo real sobre o jogo e lhes permite comprar produtos, alimentos e bebidas sem sair do banco.

Como acabamos de ver, os dados são utilizados para obter métricas de jogadores e de rendimento das equipas.

Em referência a isso, menciono duas curiosidades:

  • Kevin De Bruyne, com o seu argumento de «Se vos dou tanto, valho tanto», foi capaz de renovar o seu contrato com o Manchester City ao apresentar dados reais sobre o seu rendimento e sem necessidade de ter um agente intermediário.
  • Pep Guardiola acaba de contratar quatro astrofísicos para o seu staff, para o ajudarem a obter e a analisar dados de rendimento que lhe permitam tomar melhores decisões.

As marcas desportivas devem ser corajosas e encarar o ambiente exigente em que vivemos como uma oportunidade para experimentar coisas novas e impulsionar a transformação da indústria, na qual os fãs estão mais do que nunca no centro de tudo.

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